A Teoria dos Jogos foi inventada na década de 40 por Von Neuman. Este notável homem percebeu que em situações de conflito de interesse, a linguagem comum não atingia resultados. Então, ele pensou em usar a matemática.
A matemática é uma linguagem pura e elegante, capaz de descrever uma estrela, um prato, uma onda (hi hi hi) e quase tudo que conhecemos. Para representar estas situações, Neuman criou uma matemática especial onde os ganhos de jogadores nestas situações podem ser representados matematicamente. A Teoria dos Jogos foi largamente aplicada em análise de mercado, bolsa de valores, comportamento humano e até na biologia! De fato, um cara chamado Richard Dawkins (qualquer coincidência com Darwin é mera semelhança) está revolucionando a Teoria da Evolução aplicando as idéias do nosso agora bem conhecido Von Neuman.
Diversos prêmios Nobel de Economia foram dados a trabalhos que tinham por base a Teoria dos Jogos. A principal conclusão dos Estudos subseqüentes à teoria dos jogos foi que a colaboração mútua é a estratégia mais eficiente para cada individuo, secundariamente para o grupo no qual ele pertence.
Um exemplo: você está voltando para casa, o sinal está vermelho e você pára. Por que? Ora seria mais fácil avançar o sinal e chegar primeiro em casa. Isto é lógico, é egoÃsmo puro, mas é lógico. Para que parar no sinal e perder tempo?
Porque estamos nunca cidade e outras pessoas estão indo para casa também. Se não pararmos no sinal para outras pessoas passarem, haveria acidentes, a cidade seria tomada por engarrafamentos e ninguém chegaria em casa! Então, perdemos alguns segundos no semáforo, e aguardamos nossa vez de passar.
O egoÃsmo particular de chegar em casa deu lugar à cooperação mútua para que todos cheguem em casa, inclusive você. Nosso egoÃsmo promoveu a cooperação, porque somos egoÃstas, queremos chegar em casa! Esse Von Neuman era fantástico não é?
Estou trabalhando em um artigo que usa a Teoria dos Jogos para analisar estratégias em um conteste. Mas agora vamos voltar aos QSL's.
É sob essa ótica que gostaria de colaborar com esta questão.
Para que possamos aplicar a Teoria dos Jogos alguns pré-supostos devem ser assumidos antes de prosseguirmos:
1) Este não é um jogo de soma zero. Isto quer dizer que não é uma partida de futebol ou xadrez, que para um jogador ganhar o outro necessariamente precisa perder. Devemos assumir que todos estão interados em ganhar, sem se importar se os outros jogadores também estão ganhando. Ou seja, queremos chegar em casa, não importa se todos também chagaram nas suas casas. Queremos receber nossos cartões, mas sem necessariamente fazer com que a confederação não receba a contribuição das Federações.
2) A sombra do Tempo é longa. Estamos falando de uma relação duradoura, e não de uma situação única e casual que nunca se repetirá. Todos os dias nós voltamos para casa - dia após dia. Claramente, o que eu quero dizer é que vocês não estejam interessados em apenas receber seus QSL's retidos e não participar mais do jogo.
3) Você vai ler este artigo até o fim! J
Então, vamos analisar a situação dos QSLs. De um lado estão todos que querem receber seus cartões, de outro está a confederação que quer receber a contribuição das federações. Mas onde ficam as federações aqui? Será que elas ficaram com o dinheiro dos sócios e não passaram para a confederação?
Certo, vamos por partes. As federações são outra escala desse problema. Elas também têm conflitos de interesses com os associados. De fato, são as confederações que lidam com os radioamadores no dia-a-dia! Ah, a sombra do tempo é maior aqui! Então, vamos olhar mais de perto:
Um radioamador é sócio da LABRE e está em dias com suas mensalidades (não gosto de como chamam aqui: quite com suas obrigações estatutárias!). Quais são os interesses particulares desse individuo? Quais são as "utilidades" (do inglês utility) desse macanudo? Por que está associado à LABRE? Será que o bloqueio dos cartões o incomoda? Será que a falta de um churrasquinho ou um suvenir é o que ele realmente quer? Talvez ele esteja em busca de representatividade? Finalmente, porque ele paga a LABRE??
Quem sabe? Ninguém! A federação tem um relacionamento de longo prazo com esse radioamador e não sabe qual é a "utilidade" da LABRE para ele. Caso este passo seja superado, então podemos seguir.
Suponhamos que já sabemos o que é importante para os sócios, então temos que identificar os interesses da Federação em seus sócios. Claro que o interesse maior da federação é realizar os anseios dos sócios (pelo menos deveria ser!) Mas precisa-se de grana. Então, a "utilidade" mais importante para a Federação são as Mensalidades.
Dentro desse cenário, os sócios podem trair ou colaborar com a Federação. Atrair é deixar de pagar a mensalidade, colaborar é pagá-la.
A Federação também pode trair ou colaborar com o sócio. Trair é deixar de atender aos interesses dos sócios (que agora já assumimos que são conhecidos). E colaborar é realizá-los.
Mas, sabemos que não é tão simples. Contudo pode ser simples, se você deixar claro o que pode ser feito com o volume de recursos que devem entrar se todos colaborarem.
Por exemplo, pode ser que a utilidade para um sócio seja realizar uma expedição à Antarctica. Se a federação prometer que vai realizá-la, mesmo sabendo que é impossÃvel, estará se preparando para enganá-lo, ou melhor, traindo-o.
Deve ser elaborado um cronograma palpável, baseado na entrada de recursos e na participação dos sócios. Este cronograma deve de longo prazo e principalmente aprovado pelas partes!
Se uma parte trai, deve-se puni-la imediatamente, antes na próxima traição. Punir, sob a forma de exigências que o combinado seja realizado. Depois disso, deve-se esquecer a traição e a punição. Caso contrário, as traições re alternam é o fim do sistema. Não vou ensinar a punir, mas que tanto o sócio quanto a Federação sintam que trair não é uma boa estratégia.
Estou sendo abstrato demais. Vou refinar. Se um sócio deixa de pagar, por um mês, deve pagar pelo atraso (sei lá, pagar juros, multa, deixar de usar alguma utilidade importante para ele) e se persistir ele deve ser cortado sumariamente do quadro. Por que toda essa rigidez? Porque se um outro sócio pagante percebe que não aconteceu nada com aquele que não pagou, ele pode argumentar "ora por que eu tenho que pagar?" E assim, a idéia da traição (sem punição) se alastra feito fogo em rastilho de pólvora e adeus sistema!
Por outro lado, a LABRE tem que fazer jus ao compromisso de oferecer as utilidades para os sócios, segundo o cronograma. Se no mês X foi acertado que seria feita uma pintura, isso deve ser cumprido à risca, sob a perspectiva de punição segundo acertada anteriormente.
Sendo mais detalhista, os QSL são utilidades para muitos radioamadores e por isso devem ser encarados como importantes para a Federação. Por isso que a Confederação reteve-os.
Mais uma vez, a Federação tem interesse em restabelecer o Bureau de QSL, uma vez que é uma utilidade importante para seus sócios, e faz parte do acordo. A Confederação quer receber a cota-parte (outra parte do acordo) para honrar compromisso em outra esfera. O sócio que não pagou deve se sentir responsável por isso.
É chegada a hora de expor essa questão para todos os jogadores: confederação, federações e sócios. Mostrar que a colaboração mútua leva ao benefÃcio geral. Assim, podemos firmar um compromisso entre as partes e criar mecanismos claros de punição à traição.
O sócio inadimplente não pode nem sonhar em receber QSL via bureau. A Federação deve ser rÃgida nisso! O Não sócio, idem! Not Member! That is!
Se não houver diferenciação entre sócio e não-sócio as utilidades provenientes das mensalidades não inócuas. "Para que pagar a LABRE se eu freqüento normalmente a sede, utilizo a estação da federação, participo dos eventos e recebo meus QSL?". Isto é o mesmo que dar um Diploma de Otário para os sócios pagantes.
Mas ai vem alguém e diz: "Por que eu tenho que pagar a LABRE se eu não utilizo nada da LABRE". Podemos pensar em uma reposta educada para eles indivÃduos (mas bem que poderÃamos chamá-los de vÃrus!). A LABRE é e sempre será representação nacional e internacional dos radioamadores brasileiros. Mas você tem direito de ficar fora dela, mesmo assim pagaremos a IARU por você, representaremos você nas questões nacionais e internacionais, mas não precisa agradecer. O sistema vai sobreviver sem você, mas saiba que se você quiser reclamar dirija-se a LABRE com profundo respeito, meu camarada!
Voltando a ponto central, se não mostrarmos que participar da LABRE, colaborando mutuamente é vantajoso, não há como aplicar a Teoria dos jogos aqui, nem mesmo pensar em soluções. Além disso, podemos pensar em longo prazo, talvez pensando em colaborações anuais e criando uma estrutura mista de serviços oferecidos pela Federação e pela Confederação.
Para saber mais sobre a Teoria dos Jogos eu Recomendo o livro O Glorioso Acidente, de Clemente Nóbrega e um mais recente O Relojoeiro Cego de Richard Dawkins.
Espero ter colaborado com a discussão.
73, Luc PY8AZT
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