Ontem, eu estava procurando por um e-mail antigo, quando encontrei alguns e-mails perguntando por PY8JND, o assunto era “PY8JND ???????”. Alguns radioamadores responderam informando endereços de e-mails encontrados na Internet. Mas parece que nenhum deles responde.
Embora, eu o tenha conhecido pessoalmente, há anos que não tenho notícias sobre ele. Porém, recentemente um amigo em comum me trouxe boas novas sobre o PY8JND, mas antes vou apresentar o homem por trás deste indicativo e como ele chegou ano nosso hobby.
Conheci o Jurandi em 2005, quando estávamos realizando um “Dia de Campo”, um evento que a LABRE Pará realizava uma ou duas vezes por ano na principal praça pública de Belém aos domingos, quando milhares de pessoas vão à praça para assistir shows, apresentações circenses ou mesmo apenas para fazer o domingo passar mais rápido.
Numa barraca fornecida pelo Corpo de Bombeiros, montávamos uma estação completa (rádio, antena, cartazes, etc) no centro da Praça da República. Recebíamos centenas de visitantes que achavam aquilo tudo “muito interessante” e não tinham paciência para ouvir nossas explicações. O “Varal de QSLs” fazia o maior sucesso. Todos queriam saber como nós conseguíamos falar tantos idiomas diferentes… Alguns poucos achavam aquilo “fascinante”. Para estes entregávamos folders explicando o que era o radioamadorismo e os convidávamos para fazer uma visita à LABRE durante a semana. Assim, formávamos alguns poucos radioamadores por ano.
Nestes eventos, aconteciam fatos inusitados. Certa vez, um senhor, já com idade bem avançada, se aproximou e nos contou que estava nos corujando em 40m, num rodada matutina, quando ouviu sobre o Dia de Campo, então veio conhecer os rostos por trás daquelas vozes que ele ouvia no seu radinho de ondas curtas. Ele morava a mais de 50km de Belém e ficou super animado ao encontrar outras pessoas que não o chamava de “louco”.
Mas voltando ao assunto, o encontro com o Jurandi foi diferente. Ele se aproximou da nossa barraca e perguntou se alguém fazia telegrafia. Na ocasião, eu era o único cedablista presente. Ele se apresentou, disse que trabalhou muitos anos como telegrafista profissional e amava o CW. Enquanto ele falava, eu notei aquele brilho nos olhos, presente apenas em quem realmente é apaixonado pelo que está dizendo. Ele ganhou toda minha atenção a partir dalí.
Mostrei todos os equipamentos, inclusive uma chave eletrônica para telegrafia. Ele disse que já tinha ouvido falar neste tipo de chave, mas nunca tinha usado. Eu fiz um QSO em CW e ele ficou ainda mais empolgado. Bem, ele ficou lá na barraca o dia todo, inclusive ajudou na desmontagem de toda a parafernália. O orientei para ir nos visitar na LABRE.
Assim ele fez na segunda-feira, na terça, na quarta,… sim, todos os dias ele estava na LABRE. Estudou para fazer os exames, passou na prova para Classe B – ele não usou a prerrogativa de ser telegrafista profissional para ser dispensado da prova de código morse – fez todos os exames e foi aprovado com nota máxima. Um ano depois, novamente foi aprovado com louvor para Classe A.
Mesmo sendo bastante humilde e de poucos recursos financeiros, além uma família para alimentar, ele sempre dizia que tinha um sonho de ter uma estação em casa. Como não tinha recursos para montar sua própria estação, ele passou a frequentar a LABRE diariamente para utilizar da sala de rádio.
Era comum encontra-lo socado na estação de rádio da LABRE operando em 10m, 15m ou 20m entre 17h e 19h. Depois do seu “expediente” na LABRE, ele ia para o batente como segurança noturno do BASA, Banco da Amazônia, que fica a duas quadras da LABRE.
Seu estilo de operação era muito semelhante ao seu temperamento conosco. Ele sempre falava de forma calma, educada e muito atenciosa. Seus contatos em CW eram simplesmente uma aula de gentileza. Ele não estava interessado na quantidade de contatos faria. Em cada contato ele dava sua atenção total para seu interlocutor. Passava a reportagem de sinal e se apresentava com nome e QTH. Seguia à risca o protocolo formal do DX, com toda a pompa e circunstância, sem pressa alguma, como uma criança que estava comendo um doce lentamente.
Por quase dois anos, tive o privilégio de conviver com ele. Ele me perguntava muitas coisas sobre o radioamadorismo, mas no fim das nossas conversas, eu tinha certeza que eu havia aprendido mais que ensinado.
Não nos vemos e não tive notícias sobre ele desde 2006, quando mudei para o Ceará. Mesmo nas várias vezes que retornei à Belém, ninguém soube dele. Depois de 2006, a sala de rádio não era mais usada por mais ninguém e não muito depois LABRE-PA praticamente fechou as portas.
Mas através de um amigo em comum, tive uma grata notícia sobre o Jurandi. Ele finalmente montou uma estação em casa, e agora o PY8JND pode ser eventualmente ouvido nas faixas de radioamador.
Abaixo spots de PY8JND no DXCluster:
2005 – operando da LABRE-PA KI4FIA-@ 14037.0 PY8JND 559 in FL 2227 13 Oct HA8KW 14024.8 PY8JND 2056 21 Sep N4BAA 21023.7 PY8JND 1957 08 Apr 2006– operando da LABRE-PA F5SL 14003.0 PY8JND 2113 29 Aug HA8KW 14024.8 PY8JND op Jurandir in Belem 2106 07 Aug UA4CR 21026.4 PY8JND op Jurandir .Strong 2005 17 May DK4WF 14032.2 PY8JND cfm ok Juandir in Belem... 2133 28 Apr 2011– operando da sua própria Estação K2IR 28020.0 PY8JND zp9mce on freq bad operator 2033 14 Dec YV5HUJ 21020.0 PY8JND Tnx QSO Pse emailme 1455 21 Sep
Tenho certeza que o radioamadorismo tem vários “Jurandis”, apaixonados por telegrafia, por fonia, por rodada, por modos digitias, DX, Contest e por trás de cada indicativo escutado nas faixas, pode haver uma linda história de alguém que se apaixonou pelo nosso hobby.
PS. A LABRE-PA está sendo reativada. Vários radioamadores estão se empenhando para realizar o rito jurídico necessário e formar uma diretoria para tocar as atividades da LABRE. Quem sabe em breve, eles retomam o projeto do Dia de Campo e novos apaixonados encontrem o caminho do radioamadorismo…
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{ 3 comments… read them below or add one }
Bom dia a todos,
Esta matéria foi uma das mais distintas que já ouvi, uma história seguida de outras história que se encontram e formam uma só.
Um exemplo de quando se gosta de radio não existe limites ou barreiras pois sempre dentro das possiblidades e oportunidades esses amantes acabam encontrando meios para atingir os objetivos, seja na instalação de uma antena, na compra de um transceptor, pois como foi dito na matéria um senhor acompanhava os QSO´s da faixa amadora como radioescuta em seu receptor, outro que por anos atuou como telegrafista, não teve a oportunidade antes de conhecer o hobby, e quando teve a oportunidade abraçou de forma tão intensa que rendeu essa interessante história.
Parabens aos que deram a oportnidade e incentivo a um “veterano – novato” para se tornar um radioamador.
Que bela estória sobre como nosso hobby é apaixonante!
Parabéns Luc, obrigado por nos compartilhar está estória, serve como incentivo para organizar eventos “Field Day”, e quem sabe agregar mais apaixonados para esse maravilhoso mundo do Radioamadorismo.
73 de PY2LUC…
Show de bola. . .