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Dois dedos de prosa

Dois dedos de prosa

Tenho manifestado no Refletor do Araucária minha alegria em ver o crescimento vertiginoso do radioamadorismo de competição e de DX no Brasil. A melhora da propagação com a aproximação do Ciclo Solar 24 traz ainda mais adeptos do DXismo que estavam num estado de letargia.

Com isto ocorre, de vez em quando, algumas desavenças justamente por que nem todos nós estamos preparados para enfrentar estas situações que nos são agora colocadas. Tecnologias novas, novas ferramentas e as formas corretas de usá-las.

Não me sinto um veterano, mas lá se vão mais de 25 anos fazendo DX e quase o mesmo tanto fazendo Contestes. Bem ou mal, aos trancos e barrancos, acabamos aprendendo um pouco com um, um pouco com outro…

Por ser quase o único radioamador PP1 à fazer DX e Contestes, acabo ilhado (nos dois sentidos, afinal estou em Vitória, uma delícia de Ilha) e não tenho acesso à estas inovações e tecnologias. Nestes anos, sempre ligo para um, mando e-mail para outro, e às vezes ouço ou leio as mesmas perguntas de colegas indignados: você é realmente radioamador? Tem certeza de que não sabe o que é isto? (alô Ivan – PY1YB, meu Guru, olha você aí, hi hi hi).

Pior do que não saber, é o não procurar saber ou mesmo não querer saber. E tenho sempre procurado auxílio naqueles que mais conhecem. Desde minha primeira participação nos encontros do Araucária, percebi que não podia mais ficar sem comparecer à estas nossas Convenções para que possa ganhar experiência. Tive um hiato entre os maravilhosos ENCEBRA e os Encontros Araucária, que me fizeram muita falta.

A participação no ano passado, do ARRL 10 desde a ZX5J, junto com Serginho e seus filhos de 14 e 12 anos de idade então, onde fomos vice campeões mundiais, me deu uma experiência fantástica. Estar ao lado de um grande campeão de várias versões de vários Contestes, com a experiência que tem o Sérgio, equivaleu-se à fazer um curso intensivo de tudo o que se deve ser feito para se ter sucesso num Conteste.

Contudo, meus dois dedos de prosa prende-se ao que pudemos perceber nas Bandas com a movimentação de um novo País, o ST0R – South Sudan. Esta semana, na mesma QRG onde estava a estação de ST0R em 40 Metros sub faixa de CW (em 7.004 para ser mais exato), havia várias horas, pudemos escutar uma estação do Peru que chamava CQ e não saiu da frequência, à despeito das centenas de pedidos e de passarem para ele que a frequência estava ocupada e que tratava-se de um raro DX. Depois, escutamos também uma estação brasileira que até mesmo tentou o QSO com o colega OA4. Peru é País que não dá sopa (sem nenhum trocadilho) em 40 Metros todos os dias.

O que houve de errado neste caso?

Aqui começa a história. Vou voltar 27 anos no tempo:

Quando comecei á fazer DX, nos idos de 1984, procurei um grande radioamador de então aqui no Espírito Santo, o Patrick – PP1BG, que já não está mais entre nós. Falei de minhas intenções em entrar para o mundo maravilhoso do DX e perguntei à ele o que fazer para começar nesta atividade. Ele se calou, olhou para uma estante ao lado dele, passou a mão numa coleção onde haviam mais de 80 revistas Antena-Eletrônica Popular e me disse: leia tudo, depois me procure.

A princípio desanimei ao ver a pilha de revistas na minha frente. Pensei que talvez a tarefa fosse mais árdua do que eu supunha. Mas não me dei por vencido e levei aquele monte de revistas para casa. Me desafiei e me coloquei a meta de ler uma revista à cada 02 dias. Tinha pressa de entrar neste fantástico mundo do DX.

Passados alguns meses volto eu à casa do Patrick que a esta altura me olhou de cima à baixo e duvidou que eu tivesse lido todas aquelas revistas. Confesso que naquele momento fiquei irritado e o julguei como um sujeito arrogante. Eu estava satisfeito com meu feito de ler todas aquelas revistas. Qual a minha reação então? Perguntá-lo qual o próximo passo. Para minha surpresa ele se volta novamente para a mesma estante e pega outro monte de revistas e me dá e diz: quando acabar de ler volte aqui… Quanta frustração. O que ele queria era se livrar de mim. Um sujeito que aparece na casa dele pedindo ajuda para fazer DX, onde já se viu isto?

À mim não restou alternativa à não ser ler todas aquelas revistas. Passado pouco mais de um mês, volto mais uma vez, usando de muita coragem para enfrentar novamente aquele radioamador turrão, inglês, metido à besta.

Mais uma vez aquele olhar de reprovação denotando claramente suas dúvidas se eu teria lido ou não aquele monte de revistas. Me fez entrar. Desta vez não fomos para seu Shack, que era meu lugar preferido, para ficar vendo aquele TS 430S, meu sonho de consumo naquela época, quando tinha um belo exemplar de um Delta 500 cara preta.

Fomos para a copa de sua casa e ele deixou a pilha de revistas em cima da mesa. Me ofereceu um copo de suco. Já passavam das 20:00 horas e ele queria ver o Jornal Nacional e me convidou para ver com ele. Aceitei. No intervalo do JN, ele me fez uma pergunta: qual dos articulistas da Revista você mais gostou? Era um teste, aliás, um quis, afinal, ele era inglês, hi hi hi. Minha resposta foi de pronto: Gilberto Afonso Penna – PY1AFA. Centrado, divertido, bondoso, profundo conhecedor e sempre muito bem humorado. Ao que ele me sapecou: me dê outro nome. Minha resposta: Laimgruber. Outro. Carneiro – PY1CC. Outro, e outro, e outro, até que não restasse nenhuma resposta.

Patrick deu uma risada sínica e voltou a atenção para o JN. Acabado o Jornal fomos, enfim para seu Shack. Começo ali minha viagem mágica ao mundo do DX.

Primeira lição: se você não fala bem inglês, ou faz um curso ou aprende o mínimo necessário para fazer DX e não passar raiva.

Nunca se envergonhe de não saber tão bem o inglês ou outra língua. A mesma obrigação que você tem de saber falar outra língua para fazer um QSO normal, o outro radioamador tem de falar português. Mas se vai enfrentar um pile up, fazer CQ DX ou contestar alguém que chama em inglês, tem que saber se virar.

Ele me ensinou o que era split (que ele apelidava de roleta russa), o que era um pile up, quais os horários de propagação, quem era DX e quem era um QSO dito como ordinário (no bom sentido da palavra), etc. Foram meses de aprendizado, seja pessoalmente, seja em VHF, sempre acompanhado de uma boa turma de radioamadores ávidos por suas colocações e troca de informações.

Uma coisa que ele me ensinou e que é de suma importância desde sempre e que será até o fim dos dias no radioamadorismo, e que faz parte de nossa Legislação mas que poucos radioamadores o praticam, e que é o mote de minha história: Quando entrar numa frequência, esteja certo de que ela está livre. Não seja um inconveniente, um estorvo.

Se quer fazer CQ, escolha uma frequência; pare nela, escute por alguns instantes. Mesmo estando silenciosa, não é sinal de que não esteja ocupada. Passados alguns instantes, se dê ao trabalho de perguntar, seja em português ou em inglês, se ele encontra-se livre:

Em Fonia:

– Esta frequência está ocupada, por favor?

– Is this frequency occupied, please?

Repita após algum silêncio e se não houver nenhuma manifestação:

– Esta frequência está em uso por alguma outra estação, por favor?

– Is this frequency in use by anyone please?

Em CW:

– QRL?

(sim, telegrafia tem isto de bom, é sintético. Basta um QRL e uma

interrogação e já se sabe que alguém pergunta se a QRG está ocupada).

Neste caso, inicie seu chamado, mas lembrando-se que, ainda que ninguém responda ao seu questionamento, a frequência pode estar em uso por outra estação cuja propagação ainda não deu condições de que vocês se escutem. Caso isto ocorra após algum tempo ocupando a QRG, não se aborreça ou parta para a agressão ou competição pela frequência, pois muito provavelmente vocês foram surpreendidos por uma abertura esporádica. Tente negociar quem fica e quem sai da frequência. Como o Patrick era Lorde, sempre se dispunha à ser ele a fazer QSY. Era um homem admirável.

Esta é uma regra básica e que, se tivesse sido seguida pelo colega do Peru e pelo brasileiro, certamente teria evitado os dissabores que ocorreram na frequência.

O peruano deveria ter escutado a frequência, escutado um pouco mais, perguntado se ela estava ocupada. O brasileiro, assim que pediram à ele o QSY, atendeu. Talvez não escutasse o ST0R, que naquela noite estava bem baixo.

Se você estiver na frequência e escutar este questionamento, responda:

Em Fonia:

– Está sim, obrigado.

– Yes, it is occupied, thank you.

Em CW:

– Yes TU

(este TU de Thank You, simples assim).

No final, eu e o Patrick viramos amigos inseparáveis, até que em 2006 ele ascendeu à uma Classe melhor do que a nossa e foi para a Morada de nosso Pai, me fazendo perder um amigo e um segundo pai. Mas as suas lições ficarão comigo, como seu legado, até quando me juntar à ele, na Casa de Deus. Desculpem-me os dois dedinhos e meio de prosa, afinal eram muito mais que 10 dedos, hi hi hi.

Forte 73 de PP1CZ – Leo.

PU8TEP: O DXista e o QSL

Ainda lembro quando recebi meu primeiro cartão de QSL. Já praticava DX há algum tempo – sem nem mesmo saber o que era isso, mas depois que recebi o primeiro QSL de Alexandre, PU2TAC na “Magic Band” – 50MHz, logo tratei de saber como o responderia; qual era a prática dos QSLs e como fazer para ser encontrado pelos outros DXers. Assim, ingressei em uma das muitas tradições que tornam o Radioamadorismo fascinante.

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Descobri o QRZ.com, fiz meu cadastro e depois disto recebi uma “chuva” de QSLs. Era caixa de correio cheia o tempo todo. Alguns com o “selos verdes” americanos, outros com envelope auto endereçado e Cupons Response Internacional. Nossa, aquilo era uma alegria.

Logo começaram a chegar cartões de forma direta, mas sem o porte de retorno. Achei normal , respondi a todos de forma direta também, isso também faz parte.

Junto aos serviços de Correios brasileiro descobri que poderia enviar “Carta Social” pagando apenas R$ 0,01 (um centavo) e a partir daí adotei esta prática para QSLs brasileiros, assim o custo não seria significativo.

E os cartões para o exterior? Estes sim, deram uma certa dor de cabeça. Tinha que pagar R$ 1,05 para os EUA e R$ 1,15 para a Europa. Até que não parece problema para quem recebe 10 ou 15 cartões por mês, mais para quem recebe de 200 a 300 – ou mais – chega a ferir o orçamento da família.

No meu QRZ.com expus as formas de como obter meu QSL. Fui criticado por colegas daqui de Roraima, disseram que eu estava cobrando por QSL. Pra quem recebe poucos QSLs isso parece ser prática “mercenária”.

A quem está começando no DXismo, recomendo criar seu perfil no QRZ.com, e informar como conseguir seu QSL. É bom manter seu QRZ sempre atualizado. Além do QRZ, inscreva-se no LoTW (Logbook of The Word) para facilitar a confirmação de QSOs.

Depois que ingressei no LoTW (Logbook of The Word), consegui respirar aliviado, pois a quantidade de QSLs sem porte de retorno diminuiu bastante.

Faça DX e divirta-se com cada “figurinha” trabalhada, depois reviva a emoção do contato quando receber o QSL referente àquele QSO. Isso é muito prazeroso.

O CW e o Radioamador Classe “C”

Não faz muito tempo que ingressei no mundo rádio e desde então o grande “bicho-papão” era o tão temido Código Morse. Logo no início meu grande amigo Clovis (PV8ADI) disse que: Só sabe se alguém vai ser um bom radioamador se este aprender e praticar CW. Isso para um radioamador Classe “C” parece uma barreira, mais pra mim foi como um desafio.

Hoje ainda sou Classe “C” e amante do CW. Este assunto deixa margem a diversos pontos de vista, por causa, principalmente, da natureza da transmissão que, de certa forma, apresenta algumas – poucas – dificuldades. A essência do rádio para muitos está no QSO PHONE, as tão amadas “rodadas” – isso sim é um grande obstáculo a ser enfrentado.Meus Tesouros

A prática do CW nos proporciona QSOs em maiores distâncias, muitas vezes, sobrepujando interferências, com equipamentos de pouca potência, consequentemente, de menor custo e superando a diversidade de idiomas.

Às vezes nós, os Classe “C”, acreditamos que podemos nada mais que o VHF/Local (tipo os 2M via repetidora) e os 10M se misturando ao grande número de clandestinos que invadem nossas bandas. O CW está aí para abrir inúmeras fronteiras entre as bandas, claro que, não é da noite para o dia que se tornará um “expert” em CW, mais, a vontade de concluir o QSO com o outro radioamador do outro lado do mundo é recíproca, ele também quer fechar com você, por isso, usamos velocidades baixas – QRS – para que os demais, respeitando nossos limites, nos ajudem.

Em frente ao meu manipulador sinto uma série de modificações comportamentais que superam outras terapias. Conseguimos nos desligar totalmente do ambiente dominante, simplesmente, é o poder de concentração. O poder de comunicar em uma língua única com os quatro cantos do mundo é o que nos dá satisfação de pertencer a esta grande família, abnegada de preconceitos de fronteiras, credo, raça, política, religião, poder aquisitivo, e isso, proporcionando aprimoramento, sob o ponto de vista cultural, fraternal e psicológico.

Portanto, sei que é difícil ficar longe das “rodadas” de bate-papo, mais, se dermos um pouco mais de atenção no começo da vida radioamadorística aos mais diversos modos, principalmente o CW, ganharemos muito mais para uma vida inteira de DX.

Em um ano de DX um Classe “C” roraimense, conseguiu o tão ambicionado DXCC Mixed, com 105 entidades trabalhadas e confirmadas, sendo que 56 foram em CW. O CW diminuiu um pouco tempo para a conquista do DXCC. Isso é apenas um ponto positivo do CW na vida do “PU”.

Existem pontos de vista contraditórios quando se fala de CW. Deixando tudo isso de lado, principalmente, a natureza da transmissão que alguns a intitulam de difícil, temos que gostar do que fazemos e nada mais importa. O DX em CW com certeza nos proporciona muito mais que qualquer outro modo de operação.

Em 2010 consegui realizar 5.862 QSOs em CW, média de 488 contatos por mês, usando um velho ICOM IC765 que não dá mais de 75W de saída, usando na maior parte do tempo as bandas de 15 e 40m – onde nós os Classe “C” não podemos falar, de que outra forma com estes recursos poderia alcançar está média? Digital, será?!?

Hoje o classe C está para o CW como o CW está para o classe C, não temam este fascinante modo, aprenda a gostar, adote-o como seu modo predileto e verás que o DX com ele te dará muito mais prazer.

“Eu nunca vi uma pessoa que soubesse CW de verdade que não gostasse dele; pelo contrário, quanto mais cobra era, mais ela gostava do CW”. Pierpont, William G. N0HFF (Bill) em A Arte e a Habilidade da Radiotelegrafia.

Leitura sugerida: A Arte e a Habilidade da Radiotelegrafia. Pierpont, William G. N0HFF. 3ª Edição Revisada, Outubro de 2001. Traduzida por Biscaia, Rui Carlos M. – PY4BS. Janeiro de 2002.

PU8TEP: Novo Colunista

PU8TEP

Edinho, PU8TEP de Roraima é o mais novo colaborador do Portal DXBrasil. Edinho tornou-se radioamador em no final de 2007 e já obteve várias conquistas em nosso hobby: DXCC Mixed, VUCC 50MHz, WAS Basic e WAS 15m. Ele é membro da ARRL, Six Meters Club Word Wide, Contareira DX Group e CWJF.

Com esta mesma motivação ele escreverá sobre vários assuntos, entre os quais o CW. Ele quer compartilhar a experiência de aprender CW por prazer e não apenas para a promoção de classe no radioamadorismo. Vamos dar boas vintas ao nosso novo Colunista!